Blog

Por que fazer terapia em português faz diferença para brasileiros no exterior

Quase 5 milhões de brasileiros vivem fora do país. Dizer o que sente na língua materna, para quem conhece as mesmas referências, muda a terapia.
Mulher brasileira em apartamento no exterior, com neve na janela, sorrindo e gesticulando durante sessão de terapia em português por videochamada no notebook

Morar em outro país costuma vir acompanhado de sonhos, planos e expectativas: conhecer uma nova cultura, ter mais oportunidades, construir uma carreira ou viver uma experiência diferente. Por trás disso existe uma parte da mudança que não aparece nas fotos nem nas redes sociais: o impacto emocional de deixar o lugar onde você cresceu e as pessoas que conhece. Quase 5 milhões de brasileiros vivem hoje fora do país, segundo o Ministério das Relações Exteriores, e muitos deles convivem com saudade, solidão e a sensação de não pertencer a lugar nenhum, tendo que explicar tudo isso em outro idioma. Neste texto, falo sobre por que fazer terapia em português faz diferença nesse contexto, o que acontece com a identidade de quem vive entre dois países e como o atendimento online aproxima quem está longe.

No começo, tudo é novidade: lugares, pessoas, comidas, costumes, uma rotina nova. Com o tempo, a saudade aparece com mais força, e junto dela podem vir ansiedade, insegurança e uma pergunta que muita gente faz em silêncio: “eu não me sinto mais de casa no Brasil, mas também não sinto que esse país é a minha casa”.

Morar fora é conquista, e mesmo assim pode pesar

O relatório Comunidades Brasileiras no Exterior, publicado pelo Ministério das Relações Exteriores em julho de 2024 com dados de 2023, estima 4.996.951 brasileiros vivendo fora do país, 9% a mais que no ano anterior. Os Estados Unidos concentram cerca de 2,08 milhões e Portugal, 513 mil. Cada uma dessas pessoas mudou muito mais do que o endereço.

Quando você muda de país, precisa reconstruir vínculos, referências, amizades e parte da própria identidade. A sensação de estar no meio do caminho é mais comum do que parece, e não é fraqueza nem sinal de que a decisão foi errada. É o custo emocional de uma mudança grande, que costuma chegar depois que a euforia da chegada passa.

O que muda quando a terapia acontece na sua língua?

Muda a precisão. Na terapia você precisa dizer o que sente com a exatidão que só a língua materna permite, e ser compreendido passa também pelo contexto cultural, pelas experiências e pelas referências que fazem parte da sua história. Fazer terapia em português resolve a primeira parte; ter na frente alguém que reconhece as referências resolve a segunda.

Estar longe do Brasil faz você sentir falta de coisas que antes pareciam pequenas: uma conversa espontânea com um amigo, uma comida específica, uma piada que só brasileiro entende ou simplesmente poder falar sem pensar em como traduzir o que está sentindo. Imagine que você passou por uma situação péssima durante o dia e a única coisa que queria era chegar em casa e ter alguém para conversar sobre o que aconteceu. Mas precisa falar em outro idioma, adaptar as palavras e explicar um contexto que, para você, é óbvio. Será que você consegue expressar exatamente o que está sentindo? Nem sempre.

Na terapia em português, você talvez não precise procurar a palavra certa. Pode falar como fala com alguém da sua cultura, usar uma expressão, contar uma história ou fazer uma referência que carrega um significado emocional muito maior do que a tradução literal.

A sensação de não pertencer afeta a identidade

Uma das partes mais delicadas de morar fora é perceber que você começa a se sentir diferente de quem era. Quando visita o Brasil, nota que os amigos seguiram a vida, a família criou novas rotinas e você também mudou. Quando volta para o país onde mora, sente que ainda está tentando encontrar o seu lugar.

No consultório, é comum ouvir de brasileiros que moram fora: “eu sei que estou bem aqui, mas me sinto culpado por estar longe da minha família”, ou “quando vou ao Brasil, parece que não pertenço mais lá; quando volto, também sinto que não pertenço completamente”. Muitas vezes, a pessoa chega à terapia tentando entender como pode estar vivendo uma conquista e, ao mesmo tempo, sentir tanta saudade, culpa e dificuldade de se sentir pertencente. Sentir saudade não significa que você errou ao sair. Construir uma vida longe não significa deixar de amar quem ficou. É possível sentir orgulho da vida que construiu e falta da vida que deixou, ao mesmo tempo, e a terapia ajuda justamente a acomodar sentimentos que parecem contraditórios. Você não precisa escolher entre estar feliz pela nova vida e sentir saudade da antiga.

A diferença entre solidão e solitude costuma ficar mais clara nesse processo, porque estar sozinho num país novo não é o mesmo que estar em paz com a própria companhia.

Um espaço de identificação e acolhimento

A terapia precisa ser um espaço onde você consiga falar sobre o que não consegue dizer a mais ninguém. Para quem vive no exterior, fazer terapia em português com uma profissional que também compreenda a cultura brasileira facilita esse processo. Isso não significa que um psicólogo de outra nacionalidade não possa ajudar. Conversar com alguém que conhece as mesmas referências, porém, traz uma sensação diferente de identificação.

Você pode falar sobre a pressão de “dar certo” depois de ter deixado o Brasil, sobre a culpa de estar longe dos pais, sobre a dificuldade de fazer amigos, sobre as comparações nas redes sociais e sobre o medo de voltar e perceber que já não se encaixa. E, principalmente, pode falar sem precisar explicar o tempo todo de onde você vem e por que determinadas situações mexem tanto com você. Muita gente guarda tudo isso por anos, e já escrevi sobre o que acontece quando a pessoa passa a reprimir sentimentos por muito tempo.

Talvez a pergunta não seja só “por que estou me sentindo assim?”, mas também “o que a experiência de morar fora está despertando em mim?”. Essas reflexões abrem caminho para compreender melhor as próprias emoções e construir uma relação mais saudável com a nova realidade. O atendimento online torna isso viável de qualquer país, e expliquei como funciona no texto sobre atendimento psicológico online para quem mora no exterior.

Você não precisa enfrentar tudo sozinho

Morar no exterior pode ser uma experiência muito boa, e isso não obriga você a romantizar as dificuldades. Sentir saudade, solidão, ansiedade ou dificuldade de adaptação não torna sua experiência menos válida e não significa que você fracassou. Às vezes, você só precisa de um espaço seguro para organizar o que está acontecendo por dentro.

Se você mora fora do Brasil e sente que precisa de apoio psicológico, posso te ajudar nesse processo. Por ser brasileira e conhecer a nossa cultura, compreendo as experiências, referências e desafios emocionais de quem está construindo uma história longe de casa. Você não precisa escolher entre ser forte e pedir ajuda.

A sessão de terapia em português, online, acontece da mesma forma que a presencial: com presença, escuta, acolhimento e um espaço seguro para você falar sobre o que está vivendo. Agende pelo WhatsApp (27) 99236-5313.

Se identificou com o texto ou ficou com alguma dúvida sobre o assunto? Use o espaço dos comentários e me siga no Instagram (@psicologakarlacardozo), onde também trato de assuntos psicológicos de forma didática.

Cuide bem de você! =)

Avalie este post
Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais notícias

Duas amigas sentadas no chão da sala no começo da noite: uma desabafa com um meio sorriso de alívio enquanto a outra escuta segurando uma caneca

O que é catarse e por que desabafar nem sempre traz alívio

Por que extravasar a raiva não acalma, quando o choro alivia e como pôr a emoção para fora de um jeito que ajuda.

Estudante sentada na escada do campus com um livro fechado no colo olha para o lado, apreensiva, minutos antes de uma prova

Ansiedade antecipatória: o que é e como parar de sofrer antes da hora

O que faz a mente ensaiar o pior, os sinais de alerta e as estratégias da terapia para voltar ao presente.

Mulher sentada sozinha numa mesa de café na calçada, com o celular na mão, olha para a rua com expressão apreensiva, à espera de alguém

O que é apego ansioso e como se sentir mais segura nas relações

Os sinais do apego ansioso no namoro, de onde ele costuma vir e o que a pesquisa diz sobre mudar esse padrão na terapia.

Mulher de cabelo grisalho segura uma foto antiga tirada de uma caixa de lembranças e olha para o lado com expressão serena, na sala de casa

O que significa ressignificar e como isso acontece na terapia

O que é ressignificar, por que achar sentido numa dor ajuda mas não apaga a lembrança, e como esse processo acontece em sessão de terapia.

Homem se gaba para a mesa com a mão no peito enquanto a companheira, ao lado, desvia o olhar constrangida no almoço de domingo no quintal

O que é um narcisista e como reconhecer os traços no dia a dia

A diferença entre traço e transtorno, os 9 critérios do DSM-5-TR e o que muda quando você foca no efeito da relação sobre você.

Mulher na cozinha solta o ar devagar com a mão no peito enquanto, ao fundo, a família discute à mesa do almoço

Regulação emocional: o que é e como atravessar emoções intensas

Por que engolir o que sente não funciona e quais técnicas têm pesquisa por trás: dar nome à emoção, respirar devagar e ganhar tempo.

Homem sentado no sofá olha para o lado com expressão vazia enquanto o amigo, ao lado, comemora um gol de punho fechado

O que é anedonia, a perda de prazer que nem sempre é depressão

Quando nada mais tem graça e a tristeza nem sempre aparece. Entenda o querer e o gostar, a diferença para apatia e quando procurar ajuda.

Adolescente arruma a cama e sorri de canto para a mãe, que o observa sorrindo encostada na porta do quarto

O que é psicologia reversa e quando ela vira manipulação

Dizer o contrário convence por causa da reatância. Veja exemplos com filhos, no casal e nas compras e quando o jogo vira manipulação.

1