As eleições mexem tanto com as nossas emoções porque colocam em jogo, ao mesmo tempo, o futuro que você imagina para o país, os valores em que acredita e a convivência com pessoas que ama. A sensação de que algo importante pode ser perdido costuma deixar o corpo em alerta, e esse alerta fica ligado por semanas, alimentado por notícias, vídeos e discussões. Quando se fala em eleições e saúde mental, o efeito aparece no sono que piora, na irritação que sobe no grupo da família e no cansaço de quem acompanha tudo o dia inteiro. Até o segundo turno, marcado para 25 de outubro, dá para entender o que acontece com você nesse período e passar por ele sem desfazer vínculos.
Sumário
O que a pesquisa mostra sobre eleições e saúde mental
O estresse eleitoral é a tensão emocional e física ligada ao período de campanha, à incerteza sobre o resultado e aos conflitos que a disputa provoca. Boa parte das pesquisas sobre eleições e saúde mental vem dos Estados Unidos, onde a Associação Americana de Psicologia (APA) mede esse efeito nas eleições presidenciais desde 2016. Na pesquisa Stress in America 2024, da APA, feita pela Harris Poll, 69% dos adultos americanos apontaram a eleição presidencial de 2024 como fonte significativa de estresse, índice parecido com o de 2020 (68%) e bem acima do de 2016 (52%). No mesmo levantamento, 51% disseram que a incerteza sobre a eleição era fonte de estresse.
O peso também aparece no corpo. Kevin Smith e colegas, da Universidade de Nebraska, compararam amostras nacionais de 800 e 700 adultos e publicaram em 2022, na revista PLOS ONE, o estudo Politics is making us sick. Muitos participantes relataram estresse, perda de sono e dificuldade de parar de pensar em política, e os indicadores de saúde física pioraram depois da eleição de 2020. São pesquisas de outro país, com outro sistema político, mas ajudam a nomear reações que você talvez esteja sentindo agora.
Por que discordar sobre política dói tanto
Discordar sobre política dói porque o voto costuma carregar valores, história de vida e a ideia que cada um faz de justiça. Quando alguém próximo escolhe o lado oposto, a sensação pode ser a de que essa pessoa rejeitou também quem você é. Os pesquisadores chamam esse fenômeno de polarização afetiva: a tendência de sentir antipatia e desconfiança por quem apoia o outro lado, para além da discordância de ideias, descrita por Shanto Iyengar e colegas numa revisão publicada em 2019 na Annual Review of Political Science.
Esse desgaste se acumula no dia a dia. Brett Ford e colegas, da Universidade de Toronto, acompanharam 198 adultos por duas semanas e outros 811 por três semanas, em dois estudos de diário descritos num estudo publicado em 2023 no Journal of Personality and Social Psychology, e viram que os acontecimentos políticos de cada dia provocavam emoções negativas associadas a pior bem-estar psicológico e físico. Quem reavaliava a situação ou desviava a atenção para outra coisa relatava mais bem-estar, embora também menos motivação para se envolver em ações políticas. O estudo sugere que a forma de lidar com a notícia também influencia como você se sente.
Sinais de que o período eleitoral está pesando demais
Nenhum dos sinais abaixo é diagnóstico, e todos podem aparecer de vez em quando sem que isso seja um problema. O alerta acende quando eles se repetem por semanas e começam a atrapalhar o trabalho, o sono ou as relações:
- Sono agitado: demorar para dormir ou acordar pensando em pesquisa, debate ou na discussão do dia anterior.
- Rolagem sem fim: abrir o celular para ver uma notícia e sair dele muito tempo depois, mais tenso do que entrou.
- Irritação à flor da pele: responder com raiva a comentários que, em outro momento, você deixaria passar.
- Afastamento: evitar o almoço de família, o grupo de amigos ou os colegas por medo de o assunto aparecer.
- Corpo em alerta: dor de cabeça e tensão no pescoço ou nos ombros que pioram nos dias de debate ou de notícia forte.
Sintomas físicos que persistem merecem também avaliação médica. Se o excesso de informação é o que mais pesa, ajuda entender o impacto das más notícias na saúde mental e como o consumo de conteúdo afeta o seu humor. Escolher um ou dois horários para se informar pode ajudar a manter a eleição no lugar dela, sem deixar que ela ocupe o dia inteiro.
Como conviver com pessoas que pensam diferente sem destruir a relação?
Dá para conviver com quem pensa diferente quando a relação deixa de depender de quem vence a discussão. Antes de responder, pergunte a si mesmo qual é o objetivo da conversa. Se a ideia é convencer o outro a mudar o voto em um almoço de domingo, a chance de frustração é grande. Se a ideia é entender por que aquela pessoa pensa assim, a conversa muda de tom, e você pode sair dela conhecendo melhor alguém que importa para você.
Durante a conversa, fale do que você sente. “Eu fico preocupada quando vejo isso” abre espaço; “você não entende nada” encerra o diálogo antes de ele começar. Ouvir até o fim, sem preparar a resposta enquanto o outro fala, é muitas vezes a parte mais difícil e a que mais protege o vínculo. Essas atitudes valem para além da política, e outras dicas para se comunicar melhor com as pessoas ajudam a treinar esse jeito de conversar.
Combinar regras também ajuda. Algumas famílias decidem deixar a política fora dos encontros até o fim da eleição, e esse acordo pode ser uma forma de preservar o que vocês têm em comum: o futebol, a receita da avó, a lembrança da última viagem. Se a raiva sobe rápido demais, a pausa é sua aliada. Sair da sala, respirar e retomar depois ajuda a evitar frases das quais você pode se arrepender, e o texto sobre como lidar com a raiva traz outras estratégias para esses momentos.
Quando é melhor encerrar a conversa
Encerrar a conversa é a melhor escolha quando ela vira ataque pessoal, humilhação ou ameaça, ou quando você sai de todo encontro se sentindo pior do que chegou. Discordar faz parte de qualquer relação, mas ser desrespeitado repetidas vezes não precisa fazer. Nesses casos, aprender a dizer não e se afastar do assunto, ou por um tempo da pessoa, é uma forma de cuidar de si.
Separe uma briga pontual por política de um padrão de desrespeito que já existia. Se a eleição só trouxe à tona uma dinâmica que machucava antes, a questão provavelmente é maior que o voto, e o post sobre como lidar quando a família é tóxica pode ajudar a olhar para isso com mais clareza.
Depois do dia 25, a convivência continua
O resultado sai em uma noite, mas o tio, a amiga de infância e o colega de trabalho continuam na sua vida depois dela. Nesse período, cuidar da sua saúde mental inclui escolher quando se informar, quando conversar e quando se poupar. Se a ansiedade, a irritação ou a tristeza com a política persistem e começam a atrapalhar a rotina, a terapia é um espaço para entender o que essa disputa toca em você, sem julgamento e no seu tempo. Sou psicóloga e posso acompanhar você nesse processo. Se você estiver em sofrimento intenso, ligue 188 (CVV), gratuito e 24 horas.
Agende uma sessão de terapia comigo pelo telefone ou pelo WhatsApp (27) 99236-5313. As consultas podem ser online ou presenciais, no consultório em Vila Velha - ES, como você preferir.
Ficou com alguma dúvida ou se reconheceu em algum desses sinais? Use o espaço dos comentários e me siga no Instagram (@psicologakarlacardozo), onde também trato de assuntos psicológicos de forma didática. Se este conteúdo pode ajudar alguém que anda brigando com a família por causa da eleição, compartilhe nas suas redes sociais ou nos grupos de WhatsApp.
Cuide bem de você! =)


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