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O que significa ressignificar e como isso acontece na terapia

O que é ressignificar, por que achar sentido numa dor ajuda mas não apaga a lembrança, e como esse processo acontece em sessão de terapia.
Mulher de cabelo grisalho segura uma foto antiga tirada de uma caixa de lembranças e olha para o lado com expressão serena, na sala de casa

Ressignificar é dar um sentido novo a algo que aconteceu com você, sem apagar o fato. A demissão, o término ou a crítica que ficou na memória continuam no passado do jeito que foram. O que muda é a leitura que você faz deles hoje, e com a leitura muda o peso: a lembrança deixa de decidir por você como agir, em quem confiar e o que esperar de si.

A palavra ficou popular e às vezes soa como ordem para pensar positivo, o que só aumenta a culpa de quem ainda sofre. Na psicologia, ressignificar é um trabalho mais lento e mais concreto: perceber a interpretação que nasceu junto com a dor, conferir se ela se sustenta e construir outra que caiba nos fatos. Não é frescura nem falta de força quando isso não acontece sozinho.

A pesquisa sobre o tema também mostra um lado que pouca gente conta: procurar sentido numa dor ajuda, mas forçar esse sentido cedo demais costuma atrapalhar.

Qual é o conceito de ressignificar?

O conceito de ressignificar, segundo o dicionário Dicio, é atribuir um novo significado a algo ou redefinir. Na psicologia, o termo descreve a mudança na interpretação de uma experiência, em especial de uma experiência difícil, de modo que ela ganhe outro lugar na sua história. O evento é o mesmo; a conclusão que você tirou dele é que passa a ser revista.

A psicóloga Crystal Park, da Universidade de Connecticut, organizou esse processo numa revisão publicada em 2010 no Psychological Bulletin. Ela separa dois níveis de sentido. O global são as crenças de fundo, como “o mundo é justo” ou “eu dou conta”. O situacional é o significado que você dá a um acontecimento específico. Quando um fato choca com o sentido global, a pessoa sente a dor da contradição e tenta resolver o conflito.

Park também diferencia o esforço para encontrar sentido do sentido de fato construído, e conclui que a qualidade desse sentido pesa tanto quanto a quantidade de tentativas. Remoer o mesmo episódio cem vezes é esforço sem construção. Ressignificar é quando, depois do esforço, a história fecha de um jeito que permite seguir.

O que muda quando uma dor ganha outro sentido

Encontrar algum ganho numa experiência difícil está associado a menos depressão e mais bem-estar, mas também a mais pensamentos intrusivos sobre o que aconteceu. Esse é o resultado de uma meta-análise de Vicki Helgeson, Kerry Reynolds e Patricia Tomich, publicada em 2006 no Journal of Consulting and Clinical Psychology, que reuniu 87 estudos transversais sobre o chamado “encontrar benefício” depois de doenças, perdas e outros eventos estressantes.

Os autores encontraram outro detalhe importante: a relação entre achar sentido e se sentir melhor dependia do tempo que tinha passado desde o evento. Como os estudos são transversais, eles mostram associação, não causa. Ainda assim, o recado para o dia a dia é claro: ver o lado bom não apaga a dor, e a lembrança pode continuar voltando mesmo quando a pessoa já tirou algo do que viveu.

Por isso frases como “tudo acontece por um motivo” machucam quando chegam cedo demais. Elas pulam a parte em que você sente o que aconteceu. Ressignificar não pede que você agradeça pela dor nem que finja que ela foi boa; pede que você consiga olhar para ela sem que ela continue definindo quem você é.

Como isso acontece na terapia

Na terapia cognitivo-comportamental, o nome técnico de boa parte desse trabalho é reestruturação cognitiva. Aaron Beck e colegas descreveram o método no livro Cognitive Therapy of Depression, de 1979, a partir de uma observação simples: o que a gente sente depois de um acontecimento depende muito do que a gente conclui sobre ele, e essas conclusões costumam aparecer rápido, quase automáticas. Em sessão, o caminho costuma seguir esta ordem:

  1. Identificar o pensamento que veio junto com a dor, do jeito que ele aparece na cabeça.
  2. Conferir as evidências a favor e contra esse pensamento, com os fatos da sua história.
  3. Construir uma leitura alternativa que explique melhor o que aconteceu.
  4. Testar a leitura nova no dia a dia e observar o que muda no que você sente.

Um exemplo comum: depois do fim de um namoro longo, a frase “eu não sou suficiente para ninguém” pode virar uma regra silenciosa. Olhando os fatos com calma, às vezes aparece outra leitura, como “a relação parou de funcionar para nós dois, e eu fiquei tempo demais tentando sozinha”. A leitura nova é mais precisa que a primeira, e é essa precisão que alivia.

Em situações de trauma, existe até um protocolo construído em cima disso. A terapia de processamento cognitivo, recomendada pela diretriz da Associação Americana de Psicologia (APA) de 2017 para o transtorno de estresse pós-traumático, trabalha as crenças sobre culpa, segurança, confiança e controle que o evento deixou. Segundo a APA, ela é aplicada, em geral, em 12 sessões; isso descreve o formato do protocolo, não um prazo de melhora, que varia de pessoa para pessoa.

Muitas vezes a interpretação que pesa nasceu cedo, como mostra o texto sobre traumas da infância que aparecem na vida adulta. Em outras, ela vem com uma cobrança grande sobre si, e aí ressignificar passa pelos desafios do autoperdão. Quando a emoção ainda está intensa demais para pensar, o primeiro passo costuma ser a regulação emocional, antes de rever qualquer conclusão.

Dúvidas comuns sobre a palavra

Qual é o correto: resignificar ou ressignificar?

O correto é ressignificar, com dois “s”. A palavra junta o prefixo re- ao verbo significar, e quando um prefixo terminado em vogal se junta a uma palavra que começa com “s”, a consoante dobra para manter o som, como em ressurgir e ressaltar. Com um “s” só, a leitura seria com som de “z”.

Qual palavra substitui ressignificar?

Reinterpretar, redefinir e dar um novo sentido são as trocas mais próximas. Em contexto clínico, reestruturar ou reavaliar descrevem a parte técnica do processo. Rever não basta como sinônimo, porque dá para rever uma história inteira e chegar à mesma conclusão de antes.

Ressignificar ou ressentir?

São movimentos opostos. Ressentir é sentir de novo a mesma mágoa, com a mesma intensidade, a cada vez que a lembrança volta, porque a leitura do fato continua igual. Ressignificar é mudar essa leitura: a lembrança ainda aparece, mas chega com outro peso e já não decide sozinha o que você faz.

O que significa ressignificar a vida?

No uso do dia a dia, ressignificar a vida quer dizer mudar de direção a partir de um novo olhar sobre o que já se viveu: trocar de carreira, encerrar um ciclo, recomeçar com outro propósito. Quando a vontade de mudar vem misturada com a sensação de estar sem rumo, vale ler também sobre se sentir perdido na vida.

Quando vale procurar ajuda

Vale procurar ajuda quando uma lembrança continua decidindo por você: se ela volta sem ser chamada, se você evita lugares, pessoas ou assuntos por causa dela, ou se a mesma conclusão sobre si aparece em situações muito diferentes. Esses sinais não definem diagnóstico, mas mostram que a interpretação antiga ainda está no comando, e às vezes o que falta é olhar para a falta de autoconhecimento que mantém o padrão.

Sou psicóloga (CRP 16/3204), trabalho com terapia cognitivo-comportamental e atendo no consultório em Vila Velha (ES), que recebe pessoas de toda a Grande Vitória, e online, para qualquer região. Nas sessões de terapia, a gente olha junto para o que doeu, no seu tempo, até a história ganhar um lugar que não pese tanto. Se é a primeira vez, dá para entender antes como funciona a terapia, e para agendar é só chamar no WhatsApp (27) 99236-5313.

Se a lembrança vier acompanhada de pensamentos de se machucar, ligue para o CVV no 188, de graça e a qualquer hora.

Cuide bem de você! =)

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